S.S.
DILGO KHYENTSE RINPOCHE
Dilgo
Khyentse Rinpoche, uma das cinco reencarnações imediatas
de Jamyang Khyentse Wangpo, nasceu em 1910 como o quarto filho da
família Dilgo, a qual descendia do grande rei do século
IX, Trisong Detsen. A casa da família, seu local de nascimento,
ficava no vale de Denkhok, na região de Kham, uma das quatro
províncias principais do Tibete, a que se localizava mais
a leste. Kham compunha-se de vários pequenos reinos, dos
quais o maior e mais influente era Derge. O avô de Khyentse
Rinpoche, Tashi Tsering, e, mais tarde, também seu pai, foram
ambos ministros do rei de Derge.
O irmão mais velho de Khyentse Rinpoche tinha sido reconhecido
como a encarnação de Sangye Nyenpa, um grande professor,
cuja residência ficava em Benchen. Embora fosse muito religioso,
o pai de Dilgo Khyentse não ficou muito feliz com a notícia,
já que seu primogênito já era um monge e ele
não estava inclinado a deixar todos os outros abraçarem
a vida monástica.
Khyentse Rinpoche
reconta: “Quando minha mãe estava grávida de
mim, seu quarto filho, a família foi fazer uma visita a Mipham
Rinpoche, um grande lama que vivia numa ermida a cerca de uma hora
de caminhada de nossa propriedade. Mipham Rinpoche imediatamente
perguntou se minha mãe estava grávida. Meus pais confirmaram
sua pergunta, e em seguida perguntaram-lhe se seria um menino ou
uma menina. ‘É um menino’, disse Mipham Rinpoche,
‘e no momento em que nascer, é importante que vocês
me avisem’.
“Ele deu à minha mãe um cordão de proteção
e umas pílulas abençoadas de Manjushri, o buda da
sabedoria, para que me fossem dadas no nascimento. No dia em que
nasci, antes mesmo que tomasse o leite de minha mãe, um lama,
conforme instruções, escreveu em minha língua
a sílaba Dhi, a sílaba-semente do mantra de Manjushri,
utilizando para isso as pílulas amassadas misturadas com
água de açafrão”.
"Quando
tinha três dias de vida, meus pais me levaram até Mipham
Rinpoche, que afirmou algo quanto a eu ser uma criança especial.
Desde o meu nascimento, eu tinha cabelos longos e negros que caíam
sobre os olhos. Meu pai perguntou se deveriam ser cortados, mas
Mipham Rinpoche disse que não, e prendeu-os, ele mesmo, em
cinco pequenos coques, como o penteado de Manjushri. A pedido de
minha mãe, ele me deu um nome, Tashi Paljor (Glória
Auspiciosa), escrevendo-o com sua própria mão num
pedaço de papel que minha mãe sempre guardava em seu
livro de orações. Pouco tempo depois, meus pais me
levaram para ver Mipham Rinpoche outra vez. Ele me deu uma iniciação
de Manjushri e disse: ‘Através de todas as suas futuras
vidas, vou tomar conta de você’. Sinto que esta bênção
dada por ele foi o evento mais importante da minha vida".
Quando tinha
um ano, um grande lama da linhagem Sakya, Loter Wangpo, veio à
minha casa. Ele era o discípulo Sakya mais importante de
Jamyang Khyentse Wangpo. Ele me abençoou, cantou algumas
invocações, e disse para minha mãe: 'Essa é
uma criança diferente de todas as outras’. Ele me deu
de presente uma conta do rosário de Jamyang Khyentse, o qual
usava ao redor do pescoço. Também me deu um longo
lenço cerimonial de seda branca, dizendo: 'Esse menino é
a emanação de meu professor, Jamyang Khyentse Wangpo.
Há três dias seguidos tenho tido sonhos e visões
de Khyentse Wangpo, e, quando eu vi o menino, não tive mais
nenhuma dúvida’.
Em qualquer assunto importante, meu pai procurava aconselhar-se
com Mipham Rinpoche, e nesta ocasião Mipham Rinpoche disse:
‘Ainda é um pouco cedo para reconhecer publicamente
o menino como a encarnação de Khyentse. Fazê-lo
agora poderia provocar obstáculos’. E assim, pelo momento,
meu pai não ofereceu meus cuidados para Loter Wangpo, nem
mandou-me para o Monastério de Dzongsar.
"Quando
eu estava com dois anos de idade, Mipham Rinpoche morreu, e Shechen
Gyaltsap Rinpoche veio participar nas cerimônias do funeral.
Durante sua estadia, visitei-o regularmente. Ele disse ao meu pai
que eu deveria ser levado a ele mais tarde, ao monastério
de Shechen, já que eu seria de benefício aos ensinamentos
budistas e ao seres. Meu pai perguntou-lhe que indicações
ele tinha disto. Shechen Gyalysap Rinpoche, que raramente falava
sobre estes assuntos, replicou que na noite anterior ele tivera
um sonho no qual a imagem de Tserinma, a Protetora da Longa Vida
em nosso templo, transformava-se na própria deidade e dizia
a ele para tomar conta daquela criança, pois ela seria de
benefício para o ensinamentos. Meu pai, que era um homem
muito direto, disse que, se isso fosse mesmo verdade, ele permitiria
que eu fosse para Shechen. Mas que se fosse apenas para ocupar um
trono no monastério e para ser envolvido em políticas
eclesiásticas, ele então não me daria autorização
para ir. Gyaltsap Rinpoche assegurou-o que eu seria de benefício
para os ensinamentos e os seres, e assim meu pai concordou em me
deixar partir. No entanto, naquela época eu ainda era jovem
demais para ser mandado para Shechen".
Quando a família
viajava em peregrinação, outros grandes lamas, tais
como Taklung Matrul e Adzom Drukpa diziam que aquela criança
devia ser um lama encarnado. Mas seu pai não queria deixá-lo
tornar-se lama, pois havia uma grande família, uma vasta
propriedade e muitas terras para cuidar. No entanto, conforme reconta
Khyentse Rinpoche: ‘Naquele mesmo ano sofri queimaduras terríveis.
O verão em nossa propriedade era a época mais ativa
do ano agrícola, durante a qual empregávamos muitos
trabalhadores. Para alimentar a todos, enormes quantidades de sopa
eram preparadas num imenso caldeirão. Certo dia, brincando
com meu irmão, caí dentro do caldeirão de sopa
fervente. A parte inferior do meu corpo sofreu queimaduras tão
graves que tive que permanecer acamado durante vários meses,
seriamente doente, apesar das muitas preces de longa vida que minha
família recitava para mim.”
“Em desespero, meu pai perguntou: ‘Que cerimônias
você acha que ajudarão você a melhorar? Se há
qualquer coisa que possa salvar sua vida, nós precisamos
fazê-lo!’”
“O que
eu mais desejava era tornar-me monge, e por isso respondi: ‘Ajudaria
muito se eu pudesse usar roupas de monge’. Meu pai cumpriu
sua palavra, e rapidamente fez com que algumas vestes monásticas
fossem feitas. Quando as puseram sobre o meu corpo estendido na
cama, senti-me transbordante de alegria. Eu também tinha
posto em meu travesseiro um sino e um tambor de mão rituais".
“No dia
seguinte pedi a Lama Osel, o atendente de toda a vida de Mipham
Rinpoche, que viesse e raspasse a minha cabeça. Contaram-me
que alguns dos nossos antigos colonos choraram naquele dia, lamentando:
‘ Agora que o último filho dos Dilgo tomou os votos,
é o fim da linhagem familiar’. Mas fiquei tão
feliz que minha saúde melhorou rapidamente e o risco de uma
morte extemporânea foi superado. Tinha então dez anos
de idade.”
A ENTRONIZAÇÃO
DO JOVEM DILGO
A
noroeste de Derge encontra-se Shechen, um dos seis principais monastérios
da Escola Nyingmapa. Foi ali que Khyentse Wangpo e o discípulo
próximo de Lama Mipham, Shechen Gyaltsap Rinpoche (1871-1926)
formalmente reconheceram e entronizaram o jovem Dilgo Khyentse Rinpoche
como uma das cinco encarnações deste grande lama.
O menino tinha então doze anos. Khyentse Rinpoche conta sobre
aqueles anos de ouro, passados com seus professores: “Quando
chegamos, o atendente de Gyaltsap Rinpoche nos saudou com dois lenços
cerimoniais, um para mim e outro para meu irmão mais velho,
Nyenpa Rinpoche. Ele nos transmitiu o desejo de Gyaltsap Rinpoche
de que nós dois esperássemos um dia auspicioso para
encontrá-lo, pois seria a primeira vez que nos encontraríamos
com ele em Shechen. Shedrup, no entanto, já tendo estado
ali anteriormente, podia visitá-lo a qualquer momento que
quisesse.
“Esperamos
três dias antes de recebermos qualquer notícia; e,
para mim, que aguardava o meu primeiro encontro com o meu professor,
aqueles dias pareceram muito longos. Finalmente fomos levados até
o local de seu retiro. Gyaltsap Rinpoche estava usando uma jaqueta
amarela, forrada de pele, ao invés das vestes monásticas.
Seu cabelo, enrolando-se nas pontas, tinha crescido o suficiente
para cair sobre os ombros, já que ele raramente saía
de sua ermida de retiro. Mandaram que sentássemos e nos serviram
arroz doce de açafrão. Gyaltsap Rinpoche queria saber
tudo sobre os professores que Nyenpa Rinpoche havia encontrado e
sobre os ensinamentos que recebera. Nyenpa Rinpoche respondeu às
suas perguntas por aproximadamente três horas.
“O
eremitério de Gyaltsap Rinpoche equilibrava-se numa das encostas
da montanha, e ficava a cerca de quarenta e cinco minutos de caminhada
morro acima, partindo-se do Monastério de Shechen. A trilha
que subia até este belo local era bastante íngreme
e escorregadia durante a estação das chuvas. Da janela
podia-se ver o monastério e o rio, lá embaixo no vale,
emoldurados pelas montanhas cobertas de neve durante a maior parte
do ano.
“Gyaltsap
Rinpoche foi , indiscutivelmente, um dos lamas mais eruditos e realizados
do seu tempo. Certa vez, começou um retiro de três
anos, mas depois de apenas três meses, para surpresa de todos,
reapareceu dizendo que já tinha completado o programa pretendido.
Na manhã seguinte, seu atendente notou que a marca de uma
pegada tinha aparecido na soleira de pedra de sua ermida. Essa pedra
foi posteriormente removida do local por seus discípulos
e ainda pode ser vista, nos dias de hoje, no Monastério de
Shechen.
“O monastério
costumava abrigar mais de duzentos monges. Seu abade era Shechen
Rabjam Rinpoche, outro de meus principais professores, e era ele
quem costumava ensinar os monges e dar-lhes iniciações.
Ele também visitava outros monastérios para dar ensinamentos,
viajando extensivamente, tendo chegado até o Tibete Central.”
“Também
em Shechen encontrava-se um terceiro grande lama, Shechen Kongtrul
Rinpoche. Ele morava do outro lado de uma queda d’água
próxima à ermida de Gyaltsap Rinpoche, num platô
acima de outro promontório, na encosta da montanha - um lugar
aprazível formado por vários campos, que no verão
se cobriam de flores amarelas. Shechen Kongtrul era um grande meditador
e, assim como Shechen Gyaltsap, não participava da administração
do monastério, que era gerido por Shechen Rabjam.”
“Durante
vários meses, Shechen Gyaltsap deu a todos nós os
ensinamentos mais importantes da tradição Nyingma.
Enquanto ele estava dando iniciações, eu freqüentemente
me impressionava com o esplendor e a magnificência de sua
expressão e de seu olhar quando, com um gesto apontando em
minha direção, apresentava a natureza da mente. Eu
sentia que - deixando de lado a minha própria fraca devoção,
que me fazia ver o professor como um homem comum - aquilo era na
verdade exatamente como se o grande Guru Padmasambhava em pessoa
estivesse concedendo iniciações aos seus vinte e cinco
discípulos. Minha confiança tornava-se mais forte
a cada dia, e quando novamente ele me olhava e apontava para mim,
perguntando: ‘Qual é a natureza da mente?’, eu
pensava, com grande devoção, ‘Este é
verdadeiramente um grande iogue, que pode ver a natueza absoluta
da realidade!’ e comecei a entender por mim mesmo como meditar.
Em minha visita seguinte a Shechen, recebi de Gyaltsap Rinpoche
a ordenação de noviço”.
Antes de encontrar-se
com Shechen Gyaltsap, Khyentse Rinpoche passara muitos meses estudando
filosofia budista com o maior erudito e eremita de seu tempo, chamado
Khenpo Shenga. Ele recebeu ensinamentos d’O Caminho do Bodhisattva
e de filosofia Madhyamika (“caminho do meio”). Foi também
em Shechen que Khyentse Rinpoche veio a encontrar Jamyang Khyense
Chökyi Lödro, também vindo para receber ensinamentos
de Shechen Gyaltsap. Ao final dos ensinamentos, Gyaltsap Rinpoche
entronizou o menino como a encarnação da mente de
Jamyang Khyentse. Khyentse Wangpo teve cinco encarnações,
que eram, respectivamente, as emanações de seu corpo,
fala, mente, qualidades e atividades. Khyentse Chökyi Lödro
era a encarnação de sua atividade. Khyentse Rinpoche
explica:
“Na manhã
da entronização, subi a trilha até o eremitério.
Lá dentro, um grande trono tinha sido colocado. Shechen Kongtrul,
que era ainda muito jovem nesta época, estava segurando o
incenso, e Shechen Gyaltsap estava vestido com suas melhores roupas.
Eles me disseram para que sentasse no trono. Eles entoaram versos
descrevendo as cinco condições perfeitas: a perfeição
de tempo, local, professor, ensinamentos e discípulos. Gyaltsap
Rinpoche executou a cerimônia e me ofereceu objetos sagrados
que simbolizavam o corpo, a fala, a mente, as qualidades e as atividades
dos Budas. Então ele me apresentou um documento escrito,
que dizia:
‘ No dia
de hoje , tomo o filho da família Dilgo e o reconheco como
a re-encarnação de Jamyang Khyentse Wangpo. Dou a
ele o nome de Gyurme Thekchog Tenpai Gyaltsen, Imutável Bandeira
da Vitória do Veículo Supremo. Confio a ele os ensinamentos
dos grandes mestres do passado. Agora, se morrer, não terei
arrependimentos’. Assim foram estas e outras ocasiões,
num período de aproximadamente cinco anos, em que passei
ao lado de Gyaltsap Rinpoche em Shechen. Enquanto estava lá,
eu não morava no monastério em si, mas no centro de
retiro na encosta”.
“Então
voltei para casa. Permaneci em retiro durante um ano numa caverna.
Durante o inverno, sem sair do retiro, pedi ao erudito Khenpo Thubga
que viesse e me concedesse ensinamentos detalhados sobre o Tantra
da Quintessência Secreta. Ele me deu este ensinamento três
vezes ao todo, e eu decorei tanto o texto-raiz quanto o comentário
de trezentas páginas de autoria de Longchenpa.”
“Algum
tempo depois, fui para Kyangma Rïtro, onde morava Khenpo Thubga.
Lá não havia nenhum monastério, nem quaisquer
outras construções, apenas tendas. Foi ali, com a
idade de quinze anos, que soube, por uma carta de meu pai, que Gyaltsap
Rinpoche tinha morrido. Por um instante, minha mente ficou em branco.
Então, subitamente, a memória de meu professor assomou
de modo tão intenso em minha mente que fui tomado pela emoção
e chorei. Naquele dia me senti como se o meu coração
tivesse sido arrancado do peito. Voltei para Denkhok e iniciei um
período de retiro que duraria treze anos.”
A IMPORTÂNCIA
DO MESTRE ESPIRITUAL
Khyentse Rinpoche
nos fala sobre a importância do mestre espiritual:
“Um
cristal assume as cores do pano sobre o qual é colocado,
seja ele branco, amarelo, vermelho ou preto. Da mesma maneira, as
pessoas com quem você passa o seu tempo, seja sua influência
positiva ou negativa, farão uma grande diferença na
direção que a sua vida e a sua prática irão
tomar ”
“Passar
o tempo com amigos espirituais verdadeiros irá torná-lo
pleno de amor por todos os seres e o ajudará a ver o quão
negativos são o apego e a raiva. Estar com amigos assim,
e seguir o seu exemplo, irá naturalmente imbuí-lo
com qualidades positivas deles, da mesma maneira que os pássaros
voando ao redor de uma montanha de ouro se banham na sua radiância
dourada ”
“Para
libertar-se do samsara e atingir a onisciência da iluminação
você precisa contar com um professor autêntico. Tal
professor sempre pensa, fala e age de acordo com o Dharma. Ele lhe
mostra o que fazer para progredir no caminho, e que obstáculos
evitar. Um verdadeiro professor espiritual é como a vela
que permite ao barco cruzar o oceano velozmente "
“Se
você confiar em suas palavras, encontrará facilmente
seu caminho para fora do samsara. A iluminação não
é algo que possa ser realizado apenas seguindo suas próprias
idéias; cada estágio separado de sua prática,
quer seja baseado nos sutras, quer nos tantras, requer uma explicação
de um professor qualificado "
“Diz-se
que os Budas do passado, os do presente e aqueles que estão
por vir, todos alcançaram ou alcançarão o Estado
Búdico seguindo um professor ”
O próprio
Khyentse Rinpoche se tornaria o arquétipo do professor espiritual,
alguém cuja jornada interior levou-o a uma profundidade extraordinária
de sabedoria e capacitou-o a ser, para quem quer que o encontrasse,
uma fonte de bondade amorosa, sabedoria e compaixão. Para
alcançar estas qualidades extraordinárias , Khyentse
Rinpoche passou a maior parte dos treze anos seguintes em retiro
de silêncio. Em ermidas remotas e cavernas profundas, nas
íngremes e intocadas florestas das montanhas próximas
ao seu local de nascimento no vale de Denkhok, ele meditava constantemente
sobre o desejo de trazer todos os seres sencientes à liberação
e à iluminação. Ele reconta sobre aqueles anos
passados em retiro:
“Eu praticava
desde as primeiras horas antes do amanhecer até o meio-dia,
e desde o período da tarde até tarde da noite. Ao
meio-dia , estudava meus livros, recitando os textos em voz alta
para aprendê-los de memória. Fiquei numa caverna no
Eremitério da Colina (Cliff Hermitage) durante sete anos,
em White Grove por três anos e em outras cavernas e cabanas
por alguns meses de cada vez, cercado por florestas cerradas e montanhas
de neve. Minha caverna não tinha porta, e pequenos ursos
costumavam vir farejar a entrada. Mas eles não conseguiam
subir a escada que levava à caverna. Do lado de fora da caverna
viviam raposas e todo o tipo de pássaros. Havia leopardos
não muito longe dali; eles pegaram um cachorro que estava
comigo. Um cuco vivia ali perto, e ele era o meu despertador. Logo
assim que o ouvia, por volta das três horas da manhã,
levantava e começava uma sessão de meditação.
Às cinco horas fazia um pouco de chá, o que significava
que não precisaria ver ninguém até a hora do
almoço. À noite, deixava o fogo apagar-se lentamente,
de forma que na próxima manhã as brasas ainda estivessem
quentes o bastante para serem avivadas. Eu podia atiçar o
fogo e ferver a água para o chá sem ter que me levantar
do meu assento, apenas me inclinando para a frente. Tinha comigo
uma grande quantidade de livros. A caverna era bastante espaçosa,
alta o bastante para que se pudesse ficar de pé sem bater
com a cabeça no teto, mas levemente úmida. Como a
maioria das cavernas, era fresca no verão e retinha um certo
calor no inverno.”
“Vivi
na caverna do Eremitério da Colina, sem sair do retiro, durante
sete anos. Meus pais vinham me ver de tempos em tempos. Eu tinha
dezesseis anos quando comecei aquele retiro. Passava todo o tempo
sentado numa caixa de madeira, ocasionalmente esticando as pernas.
Shedrup, meu irmão mais velho, era o meu professor de retiro,
e me garantiu que, a não ser que desse umas caminhadas do
lado de fora de vez em quando, eu podia acabar prejudicado; mas
eu não tinha a menor vontade de sair. Shedrup estava praticando,
também, em retiro parcial, numa cabana ali perto. Junto com
ele havia um atendente que, de tempos em tempos, saía para
buscar provisões em nossa casa, a três horas de cavalo
dali. Quando retornei a Kham em 1985, reencontrei aquele mesmo atendente,
ainda vivo.”
“Durante
cinco ou seis anos não comi nenhuma carne. Por três
anos não pronunciei uma única palavra. Ao meio-dia,
depois do almoço, costumava decansar um pouco e estudar alguns
livros; eu nunca perdia tempo sem fazer nada. Meu irmão Shedrup
sempre me encorajava a compor preces, canções espirituais
e poemas, o que ele achava que seria uma boa prática de escrita.
Eu tinha facilidade em escrever, e no final daquele período
tinha escrito cerca de mil páginas; mas, mais tarde, quando
fugimos do Tibete, tudo foi perdido.”
“Aquela
caverna me transmitia uma sensação de clareza, e ali
não havia nenhuma distração. Deixei meu cabelo
crescer , e ele ficou muito longo. Quando fazia a prática
do ‘calor interno’, experimentava um calor intenso,
e dia e noite, durante anos, apesar do clima muito frio, usava apenas
um manto branco e uma veste de seda crua. Costumava sentar numa
pele de urso. Do lado de fora tudo estava congelado, mas dentro
da caverna continuava quente.”
“Mais
tarde, mudei-me para White Grove. Lá, construí sozinho
uma pequena cabana de madeira com uma pequena janela. A esposa de
Khyentse Rinpoche, Khandro Lhamo, nos conta:
“Rinpoche
nunca se deitava à noite; ele dormia sentado, ereto em sua
caixa de madeira. À noite, depois do jantar, ele começava
sua sessão de prática e não falava até
a hora do almoço no dia seguinte. Na hora do almoço
seu irmão me chamava e nós almoçávamos
todos juntos, e conversávamos um pouco. Então, imediatamente
Rinpoche começava uma nova sessão e não via
ninguém até o anoitecer. Isso foi em White Grove,
onde Rinpoche passou três anos em retiro, depois que a nossa
primeira filha, Chimey, nasceu. Às vezes, o irmão
mais velho de Rinpoche, Nyenpa Rinpoche, vinha e passava alguns
meses em retiro ali perto. Mesmo depois de seu retiro , Rinpoche
só permanecia na casa de sua família por uma semana
ou duas, antes de voltar à sua ermida.”
Depois
de ter completado seu retiro com a idade de vinte e oito anos, Khyentse
Rinpoche passou vários anos com Dzongsar Khyentse Chökyi
Lodrö (1896-1959), que era, assim como ele, uma encarnação
do primeiro Khyentse. Khyentse Rinpoche considerava Chökyi
Lodrö seu segundo principal professor e tinha um imenso respeito
por ele. Depois de receber dele as iniciações da Coleção
dos Tesouros Revelados ao longo de seis meses, Khyentse Rinpoche
lhe disse que desejava passar o resto de sua vida em meditação
solitária. Mas Khyentse Chökyi Lodrö foi categórico:
‘Sua mente e a minha são uma só’, disse
ele. ‘Chegou o momento de você ensinar e transmitir
aos outros os incontáveis ensinamentos preciosos que recebeu’.
E assim, dali por diante, Khyentse Rinpoche trabalhou constantemente
para o benefício de todos os seres vivos, com a energia incansável
que é a marca registrada da linhagem Khyentse. Khyentse Chökyi
Lodrö era também um descobridor de tesouros escondidos,
e certa vez disse a Khyentse Rinpoche: “Você precisa
encontrar muitos tesouros com os quais beneficiará os outros.
Eu tive um sonho ontem à noite. Havia nuvens nas formas dos
oito símbolos auspicosos e muitas outras formas, e junto
a elas, no céu, Budas e Bodisattvas. Daquelas nuvens caía
uma chuva abundante de néctar, beneficiando os seres. Você
deve compartilhar seus ensinamentos dos tesouros’. Ele pediu-me
que lhe desse as iniciações de alguns dos meus tesouros,
e eu as ofereci a ele”.
Em uma dessas visões de terma, Khyentse Rinpoche viu a mandala
completa do Buda da vida eterna aparecer na superfície de
um lago no leste do Tibete. Seguindo essa visão, escreveu
um volume inteiro de ensinamentos e práticas espirituais.
Reunidos, os tesouros espirituais de Khyentse Rinpoche perfazem
cinco volumes. Khyentse Chökyi Lodrö então pediu
a Khyentse Rinpoche que fosse até Rekong, na província
de Amdo, e ensinasse o Tesouro dos Ensinamentos Redescobertos. Khyentse
Rinpoche concedeu estes preciosos ensinamentos e iniciações
durante quatro meses para mil e novecentos iogues. Khyentse Rinpoche
encontrou e estudou com muitos outros mestres, cinqüenta ao
todo, recebendo deles seus ensinamentos como um vaso que se enche
até o topo.
FUGA
E EXÍLIO
Por volta do
final da década de 1950, quando a guerra deflagrou-se em
Kham , Khyentse Rinpoche e sua família escaparam por um triz
para o Tibete Central, deixando seus pertences para trás,
inclusive os preciosos livros de Rinpoche e a maior parte de seus
escritos. Juntos, eles partiram numa longa peregrinação
até U e Tsang. Depois, por seis meses, Khyentse Rinpoche
sentou-se em frente da famosa estátua do Buda Coroado em
Lhasa para recitar cem mil oferendas da mandala do universo. Uma
epidemia grassava em Lhasa, e por isso ele também executou
muitas cerimônias e orações para os doentes
e moribundos , não dando ouvidos aos temores de sua família
de que também se contagiasse. Durante a epidemia, sua mãe
e seu irmão mais velho, Shedrup, morreram.
De Tsurphu,
a base do Karmapa, até o noroeste de Lhasa, Khyentse Rinpoche,
sua família e uns poucos discípulos decidiram partir
para o exílio. Eles alcançaram a fronteira butanesa
tendo quase nada para comer. O governo do Butão ofereceu-lhes
hospitalidade. Quando alcançaram um local chamado Wangdi
Potrang, alguém ouviu, num radinho, que Khyentse Chokyi Lodrö
havia falecido em Sikkim. Nesta época, Dilgo Khyentse Rinpoche
estava com quarenta e nove anos. Ele então dirigiu-se a Sikkim
para executar a cremação de Khyentse Chokyi Lodrö.
Em Kalimpong e em Darjeeling ele também encontrou com outros
grandes lamas, como Dudjom Rinpoche e Kangyur Rinpoche, com os quais
trocou ensinamentos.
A pedido da
família real, Khyentse Rinpoche mudou-se para o Butão.
Ele se tornou professor escolar próximo a Timphu, a capital.
Logo, sua perfeição interior atrairia muitos discípulos
para si, e, conforme os anos passavam, ele viria a se tornar o mais
importante professor budista no Butão, reverenciado por todos,
desde o rei até o mais humilde agricultor.
O Butão
é um reino montanhoso que conseguiu manter-se inatacado e
independente desde que o Budismo Vajrayana foi ali introduzido no
século oitavo por Guru Padmasambhava, e posteriormente pelo
tertön butanês Pema Lingpa e pelo influente professor
tibetano do século XVII, Shabdrung Ngawang Namgyal. A cultura
budista pôde florescer sem impedimentos, e seus valores estão
profundamente enraizados na mente de seu povo. Cada colina tem em
seu topo um pequeno templo, cercado por bandeiras de oração
tremendo ao vento. Rodas de oração são mantidas
em movimento dia e noite, com o impulso de quedas d’água
e riachinhos. Montanhas e florestas são salpicadas de ermidas,
nas quais praticantes em retiro devotam seu tempo à meditação.
Vária vezes ao ano Khyentse Rinpoche celebrava grandes cerimônias
chamadas druptchen, ou “grande realização”,
que duravam de oito a quatorze dias e noites ininterruptos. Certa
vez, Khyentse Rinpoche passou duas semanas na Caverna do Ninho do
Tigre, em Paro Taktsang. Lá, fez oferendas de cem mil lamparinas
de manteiga e deu vários ensinamentos e iniciações.
Em sua estadia ali, teve uma visão do grande lama do século
dezoito, Jigme Lingpa, que tinha um livro sobre a cabeça,
amarrado ao seu cabelo, e usava uma veste branca e um manto listrado
de vermelho e branco. Ele punha a mão sobre a cabeça
de Khyentse Rinpoche e lhe dizia: ‘ Você é o
herdeiro dos meus ensinamentos, a Essência do Coração
do Vasto Espaço (Longchen Nyinthig) . Você pode fazer
com eles o que desejar’. Jigme Lingpa também disse
a ele que, de modo a manter a paz no Butão e para garantir
a preservação dos ensinamentos budistas, quatro grande
estupas deveriam ser construídas. Cada estupa deveria conter
cem mil estupas em miniatura, feitas de argila. Isso foi realizado
de acordo com estas instruções.
PROFESSOR
DO DALAI LAMA
Depois
de fugir do Tibete e chegar à Índia, Khyentse Rinpoche
tornou-se um dos principais professores de Sua Santidade o Dalai
Lama. Ele tinha primeiramente o encontrado em Lhasa , em diversas
ocasiões. Pouco tempo depois de Khyentse Rinpoche alcançar
a Índia, todos os principais lamas das quatro escolas do
budismo tibetano reuniram-se em Dharamsala, o local de moradia do
Dalai Lama na Índia, para oferecer orações
por sua longa vida e discutir a preservação dos ensinamentos
do budismo tibetano no exílio. As escolas Nyingma, Sakya,
e Kagyu foram convocadas a escolher um representante para oferecer
à Sua Santidade a mandala que simboliza o universo em sua
totalidade. Em tais ocasiões, quem quer que faça a
oferenda tradicionalmente inicia fazendo um discurso longo e erudito,
descrevendo o universo de acordo com a cosmologia budista e com
os princípios fundamentais da história e da doutrina
budista. Normalmente, um grande escolástico compunha este
discurso ao longo de algumas semanas, e o lia em voz alta no dia
da cerimônia, mas requisitaram a Khyentse Rinpoche que fizesse
o discurso com apenas um dia de antecedência. Não obstante,
ele aceitou o pedido sem maiores formalidades. Um erudito ouviu
falar no que tinha acontecido e ficou preocupado por Khyentse Rinpoche
ter sido convidado a fazer uma conferência tão importante
sem preparação. Ele trouxe para Rinpoche um livro
que continha o texto de uma conferência semelhante, e sugeriu
que Khyentse Rinpoche o estudasse ou lesse trechos daquele texto
no dia seguinte. Khyentse Rinpoche agradeceu educadamente ao erudito,
mas pôs o livro sobre a mesa e retomou a conversação
que estava tendo com seus visitantes. Em seguida, foi dormir.
No dia seguinte,
quando chegou o momento de fazer a conferência na presença
do Dalai Lama e da audiência de estudiosos, Khyentse Rinpoche
levantou-se, abriu o livro pela primeira vez e, segurando-o sem
virar as páginas, apresentou um discurso altamente erudito
que durou aproximadamente duas horas. No final, durante a oferenda
dos Oito Objetos Auspiciosos para Sua Santidade, um trovão
foi ouvido no momento em que ele segurou a concha em suas mãos.
Todos ficaram impressionados com a erudição de Khyentse
Rinpoche, a qual, depois disso, tornou-se famosa entre a comunidade
tibetana na Índia. No dia seguinte, quando Khyentse Rinpoche
estava dizendo adeus à Sua Santidade, o Dalai Lama comentou:
‘Aquele trovão de ontem foi um sinal auspicioso, não
foi mesmo ?’
Mais tarde,
o Dalai Lama convidaria Khyentse Rinpoche para vir à sua
residência em Dharamsala muitas vezes. Ao longo dos anos,
Khyentse Rinpoche ofereceu ao mesmo os principais ensinamentos da
tradição Nyingma. O Dalai Lama conta sobre Khyentse
Rinpoche: “Khyentse Rinpoche é um dos meus gurus mais
importantes. Desde o meu primeiro encontro com ele, tive indicações
claras de uma relação cármica especial. Mais
tarde, recebi dele ensinamentos pelos quais hoje me sinto muito
grato. Ele é um grande praticante e um grande erudito, sem
mencionar suas qualidades secretas. Eu particularmente aprecio sua
atitude não-sectária. A despeito de sua fama e de
seu imenso número de seguidores, ele sempre se mantém
muito gentil e humilde. O Buda explicou em grande detalhe as qualidades
de um autêntico guru. Todas estas qualidades encontrei em
Khyentse Rinpoche”.
As realizações
de Khyentse Rinpoche em diferentes áreas de atuação,
individualmente, seriam mais do que suficientes para ter preenchido
uma vida inteira. Vinte anos, aproximadamente, praticando em retiro;
um alcance e uma profundidade impressionantes de ensinamentos, consumindo
pelo menos diversas horas por dia ao longo de meio século;
vinte e cinco extensos volumes de escritos; numerosos projetos de
vulto para preservar e divulgar o pensamento, a tradição
e a cultura budistas, coordenados por ele em todas as suas incumbências
– assim Khyentse Rinpoche incansavelmente deu forma à
dedicação de toda uma vida ao budismo.
É provável
que seu conhecimento do vasto escopo da literatura budista tibetana
não conheça paralelo. Além disso, ele herdou
a determinação de Jamyang Khyentse Wangpo de preservar
e tornar accessíveis textos de todas as tradições,
particularmente aquelas em perigo de extinção. Durante
a vida de Khyentse Rinpoche, a rara herança do Tibete viu-se
ameaçada por um perigo externo, com os graves tumultos da
Revolução Cultural. Inumeráveis livros, em
incontáveis bibliotecas de monastérios, foram sistematicamente
destruídos, e poucos dos lamas e eruditos que escaparam para
o exílio conseguiram trazer com eles seus preciosos volumes,
em viagens apressadas e arriscadas, freqüentemente chegando
com pouco mais do que as roupas do corpo. Na maioria dos casos,
no entanto, os textos sobreviveram, mesmo que às vezes com
apenas uma ou muito poucas cópias. Gradualmente acumulando
ímpeto ao longo de duas décadas, conforme os financiamentos
e a mão de obra se tornava mais e mais disponível,
a imensa tarefa de republicar quase a totalidade da literatura tibetana
teve início. O próprio Khyentse Rinpoche , através
de seus esforços ao longo dos anos para editar e publicar
textos importantes, preservou para a posteridade aproximadamente
trezentos volumes.
Com freqüência
complementando ou iluminando os trabalhos de grandes mestres do
passado, os escritos de Khyentse Rinpoche formam uma verdadeira
enciclopédia de textos de prática , comentários,
preces, poemas e conselhos.Mas Khyentse Rinpoche foi mais do que
um grande erudito. Não há dúvida de que para
ele, o mais importante, e o que lhe dava a maior satisfação,
era o fato de os ensinamentos que tinha realizado e transmitido
pudessem ser postos em prática pelos outros.
Ele ensinava
a cada momento disponível do dia, incansavelmente respondendo
a todos os pedidos de instrução e orientação
espiritual. Com freqüência, ensinava durante todo o dia,
por meses a fio, tanto para grupos que iam de umas poucas dúzias
de alunos a vários milhares de pessoas. Mesmo depois de um
dia inteiro de ensinamentos, estava pronto para atender a algum
pedido individual e ensinar a uma pessoa ou a um pequeno grupo,
em seus próprios aposentos, até tarde da noite. Durante
rituais que duravam o dia todo, enquanto todos os outros praticantes
saíam para o intervalo do almoço, ele fazia uma rápida
refeição e usava cada minuto antes de continuar a
cerimônia para dar a alguém a explicação
sobre algumas páginas de um texto de meditação
ou comentário filosófico. Qualquer pessoa que tenha
ouvido os ensinamentos dados por Khyentse Rinpoche saiu impressionada
com sua apresentação notável. Raramente olhando
para o texto escrito, ele falava sem esforço, em ritmo constante,
de forma contínua e sem grande ênfase, num fluxo incessante
sem pausa ou hesitação, como se estivesse lendo um
livro invisível localizado em sua memória. De alguma
forma, o assunto em questão era sempre coberto uniformemente,
do começo ao fim, no tempo exato destinado para isso, adaptado
precisamente para o nível de compreensão da audiência.
Pronunciadas por ele, mesmo umas poucas palavras podiam abrir a
porta para uma sucessão de novas percepções
da vida espiritual.
Onde quer que
estivesse, Khyentse Rinpoche se levantava bem antes do amanhecer
para rezar e meditar durante várias horas, antes de embarcar
num fluxo ininterrupto de atividades até tarde da noite.
Ele conseguia dar cabo de uma imensa carga diária de trabalho,
com total serenidade e aparentemente sem esforço. Embora
fosse profundamente gentil e paciente, a presença de Khyentse
Rinpoche, a vastidão de sua mente e sua aparência física
poderosa inspiravam admiração e respeito. Com seus
discípulos mais próximos e seus atendentes, ele podia
ser muito rigoroso, pois sabia que um bom discípulo “se
fortalece sob forte disciplina”. Ele nunca falava de forma
dura com os visitantes ou aqueles que não estivessem comprometidos
com ele, mas com seus próprios discípulos não
fazia concessões quanto a comportamentos, palavras ou pensamentos
desleixados.Para aqueles que viviam perto dele, ficava também
óbvio que podia enxergar claramente através de qualquer
hipocrisia ou falsidade. Embora os ensinamentos budistas afirmem
que não há melhor testemunha do que a nossa própria
mente, sua presença amorosa, embora impressionante, exercia
uma influência poderosa sobre seus discípulos e garantia
que suas mentes não divagassem.
A MORTE
DE UM GRANDE MESTRE
No início
de 1991, Khyentse Rinpoche começou a apresentar os primeiros
sinais de falta de saúde ao ensinar em Bodhgaya. Ao completar
seu programa ali, no entanto, viajou para Dharamsala e sem aparentar
difcudades, passou um mês inteiro dando importantes iniciações
e transmissões a Sua Santidade o Dalai Lama, as quais o mesmo
vinha requisitando havia muitos anos. De volta ao Nepal, conforme
a primavera avançava, tornou-se óbvio que sua saúde
estava se deteriorando gradualmente. Ele passava a maior parte do
tempo em oração silenciosa e em meditação,
reservando apenas umas poucas horas do dia para encontrar-se com
aqueles mais necessitados de vê-lo. Foi obrigado a cancelar
uma quarta visita ao Tibete, na qual planejava visitar o monastério
de Shechen mais uma vez. Ao invés disso, escolheu passar
três meses e meio em retiro do outro lado do Ninho do Tigre,
Paro Taktsang, no Butão, um dos locais mais sagrados, abençoado
por Padmasambhava.
Depois de seu
retiro, Rinpoche parecia ter melhorado de saúde. Visitou
vários de seus discípulos que estavam em retiro e
falou a eles sobre o professor absoluto, para além do nascimento
e da morte ou de qualquer manifestação física.
Mas pouco tempo depois, começou a apresentar sinais de doença,
e por doze dias ficou praticamente impossibilitado de comer ou beber.
No dia 27 de Setembro de 1991, ao cair da noite, pediu a seus atendentes
que o ajudassem a se sentar na posição ereta e caiu
num sono tranqüilo. Nas primeiras horas da manhã, sua
respiração cessou e sua mente se dissolveu na vastidão
absoluta.
Assim, a vida
extraordinária de Khyentse Rinpoche chegou ao fim - uma vida
passada inteiramente em estudos, prática e ensinamentos,
desde tenra idade. Onde quer que estivesse, dia ou noite, com o
mesmo fluxo ininterrupto de bondade, humor, sabedoria e dignidade,
todo os seus esforços dirigiram-se à preservação
e à expressão de todas as formas de ensinamento budista.
A pedido de
discípulos do Tibete e de todo o mundo, seu corpo foi preservado
durante um ano por métodos tradicionais de embalsamamento.
Foi levado do Butão para o Monastério de Shechen no
Nepal, onde ficou durante vários meses, para que mais pessoas
pudessem vir prestar-lhe sua homenagem. Todas as sextas-feiras (dia
da sua morte), durante as primeiras sete semanas, cem mil lamparinas
de manteiga foram oferecidas na estupa de Bodhnath, próxima
ao monastério de Shechen. Toda a comunidade tibetana juntou-se
aos monges para preparar e acender as lamparinas.

Por fim, seus
restos mortais foram cremados perto de Paro , no Butão, em
Novembro de 1992, numa cerimônia de três dias de duração,
à qual compareceram mais de cem importantes lamas, a família
real e ministros do Butão, quinhentos discípulos ocidentais
e uma multidão de aproximadamente cinqüenta mil devotos
– uma aglomeração sem precedentes na história
do Butão.
Muitos grandes
homens e mulheres, deixando-se de lado seu gênio particular
na ciência ou nas artes, não são, necessariamente,
bons seres humanos. Khyentse Rinpoche foi alguém cuja grandeza
estava totalmente de acordo com os ensinamentos que professava.
Independentemente da incalculável profundidade e alcance
de sua mente, ele foi, de um ponto de vista meramente mundano, um
ser humano extraordinariamente bom. Aqueles que conviveram com ele,
mesmo por dez ou quinze anos, dizem que nunca testemunharam uma
única palavra ou ato seu que prejudicasse qualquer ser. Sua
única preocupação era o benefício presente
e último dos outros seres. Ele foi um exemplo vivo do que
nos espera ao final do caminho espiritual, a mais alta inspiração
possível para qualquer pessoa que esteja considerando a idéia
de sair na jornada em direção à iluminação.
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