Os
Cem Versos de Instrução de Padampa Sangye
Introdução
Ao nos aproximarmos
do estudo de qualquer ensinamento espiritual, devemos começar
formulando o desejo de alcançar a iluminação,
não unicamente visando nossa liberação pessoal,
mas de modo a também poder liberar todos os seres vivos do
sofrimento e suas causas, especialmente da confusão e ignorância.
Ao estudarmos essas instruções e as colocá-las
em prática, nos tornaremos aos poucos capazes de alcançar
essa imensa aspiração. Ao refletirmos sobre o imenso
valor dos ensinamentos e conscientes da raridade desta oportunidade,
deveríamos recebê-los com a máxima atenção,
e com atitude humilde e altruísta, determinados a fazer uso
deles da melhor forma possível.
Os Cem Versos de Instrução
são o testamento espiritual de um grande sábio da
Índia, Paramabuddha, mais conhecido por seu nome tibetano,
Padampa Sangye. Em uma de suas vidas anteriores, nascera como um
discípulo próximo do Buda, o qual anteviu que em um
futuro renascimento ele beneficiaria um número incontável
de seres.
Assim ele nasceu na
pessoa de Padampa, que significa “pai sublime”em tibetano.
Como grande erudito, estudou com cento e cinqüenta professores
e colocou em prática seus ensinamentos até que ele
próprio se tornou um verdadeiro tesouro de conhecimento espiritual.
Sendo um iogue realizado, foi agraciado com inúmeras visões
e realizou muitos milagres, testemunhas da sua realização
espiritual. Finalmente, alcançou o corpo adamantino, que
transcende morte e renascimento.
Viajou para a China
e Tibete três vezes, apresentando o ensinamento “A Pacificação
do Sofrimento”, uma das oito grandes tradições
espirituais do Tibete praticadas ainda nos dias de hoje.Padampa
permaneceu por um longo período no alto Vale de Tingri, na
fronteira entre o Tibet e o Nepal. Dentre seus muitos discípulos,
quatro lhe eram especialmente queridos. Certo dia, um desses estudantes
chegou a Tingri depois de uma longa ausência, e ficou profundamente
entristecido ao ver o quanto seu mestre havia envelhecido então
pediu, “Ser Sublime, quando deixar esse mundo, você
sem dúvida, alcançará êxtase após
êxtase; porém o que será de nós, pobre
povo de Tingri? Em quem poderemos depositar nossa confiança?”
Para Padampa, morrer
seria mais do que passar de um Campo Búdico a outro. Porém
para seus discípulos, sua morte significaria nunca mais ver
seu rosto, ou ouvir sua voz. “- Em um ano”, ele disse,
“vocês irão encontrar o cadáver de um
velho eremita Indiano”. Seus olhos se encheram de lágrimas
, e foi para eles que Padampa ensinou os Cem Versos de Instrução.
Um ano se passou, e
Padampa começou a mostrar sinais de doença. Quando
seus discípulos se preocuparam com sua saúde, ele
lhes disse laconicamente, “Minha mente está doente”.
E acrescentou, para a perplexidade dos alunos “minha mente
se juntou ao mundo fenomênico.” Dessa forma ele demonstrou
que toda percepção dual havia desaparecido de sua
mente. “ Não sei como descrever esse tipo de doença”,
acrescentou com um sereno senso de humor. “Doenças
físicas podem ser tratadas, mas esta é incurável.”
Então voltou os olhos para o céu e morreu.
Eis aqui seu testamento
espiritual, Os Cem Versos de Instrução, profundos
e no entanto, de fácil compreensão. O praticante sincero
encontrará nesses versos todas as instruções
essenciais para a autêntica prática do Dharma.
OS
CEM VERSOS DE INSTRUÇÃO
Homenagem
ao professor !
Praticantes afortunados
reunidos aqui em Tingri, ouçam !
Como uma introdução
aos ensinamentos,Padampa rende homenagem ao mestre espiritual, a
fonte de todas as bênçãos e a união de
todos os Budas do passado, presente, e futuro. Ele considera os
habitantes de Tingri “afortunados” porque desejam ardentemente
estudar e praticar o Dharma, e entenderam, portanto, como dar significado
a suas vidas.
Assim como roupas usadas
não podem mais tornar-se novas,
De nada adianta procurar
um médico quando temos uma doença terminal;
Você terá
que partir. Nós, humanos vivendo nessa terra,
Somos como córregos
e rios correndo em direção ao mar-
Todos os seres vivos
estão se encaminhando para aquele único destino.
Como um pedaço
de tecido que se torna puído com o passar dos anos e finalmente
se desfaz, a vida exaure-se dia após dia, segundo a segundo.
Nada nem ninguém pode parar esse processo irreversível.
Posses ilusórias, tais como terras e fortuna, são
totalmente inúteis na hora de nossa morte. Ao final, deixando
tudo para trás, morreremos sós, retirados dos ambientes
familiares de nossas vidas como um fio de cabelo é retirado
de um pedaço de manteiga.(2). Nossas vidas não têm
outro resultado senão a morte, da mesma forma que um rio
não tem outro caminho senão o mar. No momento da morte,
nosso único recurso é a prática espiritual
, e nossos únicos amigos, as ações virtuosas
que acumulamos durante nossa vida.
Agora, como um pequeno
pássaro lançando-se do topo de uma árvore,
Eu também não
estarei aqui por muito tempo; em breve terei de seguir.
Nada é mais essencial
e precioso do que um ensinamento espiritual que nos possa ajudar
no momento da morte. Os Budas e os mestres espirituais nos legaram
a expressão viva de sua sabedoria na forma de ensinamentos.
Tais ensinamentos, inseparáveis desses grandes seres, permitem
a qualquer pessoa que os siga conscienciosamente atingir o mesmo
grau de realização e fornecem uma fonte constante
de inspiração para aqueles que seguem o caminho da
liberação.
-1-
Se desperdiçarem
o presente de forma inútil e partirem de mãos vazias,
Povo de
Tingri, será muito difícil obter uma vida humana no
futuro.
Algumas pessoas acham
que não há pressa e que haverá tempo para encontrar
um mestre espiritual e praticar o Dharma. Com essa atitude você
negligenciará o Dharma em favor de preocupações
mundanas. A morte então será tão somente a
conclusão de uma vida inútil.
Quando a estação
de semear chega, fazendeiros começam a trabalhar imediatamente.
Eles não adiam sua tarefa para o dia seguinte. Da mesma forma,
quando as condições favoráveis para a prática
do Dharma se reúnem, você deve direcionar toda sua
energia para a prática, sem mais demora.
- 2 -
Aplicar-se
com o corpo, a fala e a mente aos Ensinamentos sagrados,
Povo de
Tingri, é o melhor que vocês podem fazer.
Através do processo
infalível de causa e efeito, nossos atos, nossas palavras
e nossos pensamentos determinam a felicidade ou o sofrimento que
experimentaremos no futuro. Se o saldo dos nossos atos pender para
o lado negativo, sofreremos nos estados inferiores da existência
do samsara.
Se pender para o lado
positivo, poderemos libertar-nos do samsara e atingir o Estado Búdico
em uma única vida. A escolha é clara: evite as causas
do sofrimento e assim, assegure-se da felicidade.
Se você nascer
na forma humana, em um lugar onde o Budismo floresceu, e se encontrar
um mestre espiritual realizado, poderá colocar em prática
suas instruções e colher imensos benefícios
nessa e em todas as vidas futuras. Você irá perceber
que focar-se nas distrações mundanas e preocupações
é o que lhe mantém prisioneiro do samsara, e vai começar
a sentir um imenso desejo de libertar-se. Neste exato momento, você
está em uma encruzilhada; onde um caminho leva a liberação
e outro aos diferentes reinos do samsara. Um sutra diz:
O corpo é o barco
que pode levá-lo às margens da liberação,
O corpo é a pedra
que pode fazê-lo afundar nos abismos do samsara,
O corpo é o serviçal
do vício e da virtude.
Assim como um cristal
límpido reflete a cor daquilo sobre o qual é colocado,
seus atos tornam-se negativos ou positivos de acordo com sua intenção.
É, portanto, essencial que você tome o caminho certo
e dirija seus atos, palavras e pensamentos na direção
do Dharma.
No início,
será necessário concentrar toda sua energia no cultivo
de tendências positivas, e na eliminação das
negativas. O Brahmin Upagupta, que viveu no tempo do Buda, costumava
aguçar sua vigilância e medir seu progresso mantendo
uma contabilidade diária. Toda noite, ele fazia dois montes,
usando seixos negros para cada mau pensamento ou ação
que tivesse cometido durante o dia, e uma pedra branca para cada
pensamento ou ação meritórios. No começo,
a pilha de seixos negros ficava muito mais alta, mas aos poucos,
as duas se igualaram. Finalmente, através de grande perseverança,
ele alcançou o estágio em que todas as pedras que
empilhava eram brancas.